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Emotions in Beiras

Organizamos passeios meditativos com atenção plena à natureza. Ativar os sentidos e ver as coisas como elas são.

Emotions in Beiras

Organizamos passeios meditativos com atenção plena à natureza. Ativar os sentidos e ver as coisas como elas são.

Sab | 27.06.20

EN2 Enquanto houver estrada para andar

Dulce Ruano

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Percorrer Portugal de lés a lés aparenta algo simples e rápido tendo em conta o seu comprimento e as condições de estradas acessíveis entre nacionais, Ip’s ou auto estradas, de facto é, se pensarmos que nos metemos a caminho e o podemos fazer num único dia apesar de exaustivo, no entanto assim mal se começa e percebemos o tanto que temos para ver, visitar, explorar, admirar, entendemos que a tarefa que temos pela frente não é de todo tão simples como se imagina, torna-se numa actividade árdua de seleccionar o que é mais apetecível mas depois percebemos o quanto é difícil estabelecer prioridades e uma vez que nos propomos a este desafio queremos é aproveitar a oportunidade de conhecer e ir a todo o lado, não seguindo propriamente um padrão mas fazendo desvio aqui desvio acolá e só mais um desvio e já agora mais outro.

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Portugal é repleto de recantos encantadores e apesar de pequeno tem tanto para nos oferecer e de uma diversidade tal que num momento estamos rodeados de encostas e vales com autênticos jardins de vinhas de folhas verdes como logo a seguir nos rodeamos de eucaliptos, azinheiras, sobreiros, medronheiros ou restolho seco, ou um campo de girassóis, ou o mar, tanto que cá temos... 

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A diversidade paisagística é tão predominante que percorrer Portugal não é de todo entediante, os contrastes são incríveis, desperta-nos os sentidos e enche-nos a alma de emoções que nos torna diferentes, que nos torna mais ricos, diz-se que depois de uma viagem vimos diferentes para com nós mesmos e a prova disso é que o sentimos após cada regresso.

 

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Objetivo: Atravessar Portugal pela EN2 de Chaves a Faro

Tempo: 6 Dias

Distância: 738 Kms

Inicio: Km 0

Fim: Km 738

Desafiamo-nos à rota mágica da EN2, com inicio no Km0 em Chaves até ao Km738 em Faro, tentámo-nos limitar ao percurso da EN2 mas de todo impossível, não resistimos a fazer vários desvios, tentámos recuperar tempo e Kms nos lugares que conhecíamos ou que seriam mais fáceis de conhecer noutra data, ainda assim, tanto que ficou por conhecer.

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EN2 como terceira maior estrada mundial a atravessar um país não deixará por certo ficar nem portugueses nem estrangeiros indiferentes às paisagens cénicas percorrendo no mínimo os 738 Kms que a compõem, tão pouco de vivenciar as emoções e sentimentos que se têm em todo o seu percurso e pela familiaridade que vamos conquistando ao ponto de a sentirmos como parte integrante de nós mesmos.

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Viajar pelo interior do país de norte a sul dá-nos um enorme conhecimento da geografia, história, património, paisagens, gastronomia e das gentes, da bondade, disponibilidade e humildade deste nosso povo.

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Passámos por vários distritos, concelhos, cidades, tantas vilas e aldeias, lugares, serras, rios, cada km que fazíamos íamos absorvendo o que nos rodeava, ia-nos despertando para coisas deste país que talvez nunca tinhamos dado a devida importância ou nem sabiamos que existiam o que nos enriqueceu imenso.

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Aquando da nossa partida nesta aventura decidimos que faríamos dela a nossa liberdade no sentido de fazer o que nos desse vontade, cada dia não sabíamos onde íamos dormir, tivemos casos em procurar alojamento depois das 10h da noite, dormimos em lugares bonitos, bons e acolhedores, montámos tenda duas noites junto às barragens de Montargil e de Odivelas no Alentejo, nesta última tivemos o privilegio de, pela madrugada assistir a dezenas de coelhos a saltitar junto das tendas e das autocaravanas, ali tão perto, tão junto da natureza.

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Cada fim de tarde tomávamos a decisão onde acabaria a etapa daquele dia, pelo que o sistema de reserva para nós não seria compatível, assim como as refeições, tanto comíamos em restaurantes como umas sandochas pelo caminho ou num santuário com produtos comprados em mercearias locais.

Ainda assim, para o que desse e viesse, fomos preparados para uma viagem de descontracção e aventura, levámos apetrechos, desde tenda de campismo ao fogão a gaz, sacos cama, pratos, talheres, não quer dizer que lhe déssemos uso mas vale mais prevenir uma vez que podemos encontrar lugares que sentimos necessidade de ficar em maior contato com a natureza.

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Desta forma, as informações que deixamos são mais no sentido de desfrutar o que há para ver e sentir, mas pode haver casos em que assinalamos estadia ou restaurante.

Não estipulámos horários para comer ou viajar, deixámo-nos ir pela vontade ou pelo nosso interesse, fizemos compras no comércio local e experimentámos algo da gastronomia típica dos locais onde passámos e com maior destaque.

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Não nos lembrámos que havia televisão, tivemos muitas conversas com o GPS e às vezes voltávamos atrás para apanhar uma pedrinha a simbolizar o lugar, a aldeia, vila ou cidade para oferecer à colecção de pedras do mundo de uma amiga.

Várias vezes espreitávamos os kms nos marcos e ansiávamos pelo Km 100, pelo 300, pelo 500, pelo 666 e o único que abrandámos para não chegar tão rápido foi o Km 738 mas esse era o verdadeiro propósito.

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Pela estrada fomos encontrando e passando por outras pessoas que faziam o mesmo percurso que nós, desde auto caravanas, motos ou bicicletas, sentíamos uma cumplicidade sem nos conhecermos, como em Chaves no Km 0 estava um ciclista que aguardava por dois colegas para iniciarem a aventura, com quem trocámos o registo de fotografias no marco 0, ao quinto dia passamos por eles na zona de Torrão no Alentejo, claro que foi um encontro emotivo, outro caso de uma carrinha estacionada em Chaves dum casal com um cão enorme e na quarta noite montámos a tenda ao lado deles em Montargil, aqui conhecemos um grupo de motards com quem nos cruzávamos várias vezes e acenávamos pelo que nunca estaríamos sozinhos, sentimos uma enorme afluência nesta mítica estrada e adivinha-se cada vez mais.

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Em Viana do Alentejo fomos abordados por um vendedor ambulante de fruta que nos tentava vender alguma coisa, explicámos que andávamos em viagem e não nos convinha comprar fruta, compreendeu, no dia seguinte visitávamos Torrão e lá estava ele que nos reconheceu imediatamente, estes momentos com os que passávamos a conversar com quem encontrávamos na rua a jeito de um diálogo, eram preciosos e alguns com conselhos como o de um senhor em Santiago de Escoural no querido Alentejo, que nos disse, depois de lhe dizermos o plano da nossa viagem: “Sabem qual é a forma mais rápida de chegarem ao vosso destino?” … “É irem devagar”, nunca mais nos esqueceremos deste conselho sábio, é tão certo…

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Juntando aos 738 Kms previstos, viagens de ida e regresso a casa, voltar atrás e a tantos desvios que fizemos totalizamos 2.050 Kms, fazíamos outra vez, sim, sem dúvida, hoje iria já para Chaves, começaria já amanhã bem cedinho....

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Nota: Este texto serve de apresentação, pelo que nos próximos dias serão disponibilizados os textos de cada etapa passada e vos possam inspirar para esta aventura fantástica.

As informações dadas poderão não se aplicar ao vosso gosto ou disponibilidade mas este é o nosso registo e à nossa maneira, estamos certos que agradará a algumas pessoas, para o que necessitarem estaremos ao vosso dispor em discoveryemotions@gmail.com

Junho/2020

Ter | 02.06.20

Nave da Mestra mágica

Dulce Ruano

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Gostamos de nos sentir em lugares mágicos nem que seja por pensamentos, há quem ache até que por serem mágicos não passam de pensamentos, mas esta idéia é relativizada por cada um.

A Serra da Estrela tem lugares assim, não parecem verdade quando se lá está, sentimo-nos impotentes para explicar o que se sente, o que se vê, o que se cheira.

Esta montanha tem ainda segredos e tesouros que valem bem a sua procura e o mais intrigante, quem os encontra fica mais rico, fica mais íntimo consigo e com a montanha.

Objetivo: Nave da Mestra – Serra da Estrela

Altitude: 1.700 Metros

Tempo: 5H.

Distância: 14 Kms - Circular

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Esta actividade pode começar em vários lugares como: Manteigas, Lagoa comprida, Torre, são alguns exemplos, no nosso caso decidimos pelo Vale do Rossim nas Penhas Douradas.

Percorremos o paradão da barragem do Rossim e seguimos pela rota que nos leva ao lugar que escolhemos, a Nave da Mestra.

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O percurso está sinalizado e cada metro que passamos nos damos conta que estamos a entrar numa espécie de paraíso, é tudo de um grande encanto, desde as fragas de gigantes amontoados graníticos, à riqueza da flora, às cores predominantes, os cheiros são de um perfume tão soberbo que inalamos com grande profundidade, é como que queremos ficar com o aroma dentro de nós o máximo tempo possível, faz-nos sentir tão bem, tão leves.

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À medida que caminhamos damos conta de autênticos jardins de uma perfeição que só mesmo a natureza é mestre, subimos a uma fraga, contemplamos o horizonte e de tão bonito parece surreal, vemos botões gigantes amarelos e verdes, outros formatos em rosa e o cinza do granito, estas cores dão vida a giestas, ao zimbro, às urzes, aos cervunais, algumas das espécies que todas juntas nos arregalam a vista e o olfacto.

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A Nave da Mestra presenteia-nos com uma magia muito peculiar e remontando à sua história conta-se que a casa construída na Nave fora mandada fazer pelo juíz Dr. Matos como casa de repouso em 1910, diz-se até que servira de refúgio para a sua cura de tuberculose.  

O que mais impressiona é a sua construção, não pela sua arquitectura, é uma casa pequena e ampla, com uma porta e duas janelas de ferro, mas impressiona pela grandiosa complexidade no levantamento da poderosa laje que faz de telhado, uma placa de granito com várias toneladas e atendendo ao local e meios da época poder-se-á imaginar a brutalidade de trabalho que por ali aconteceu, parece que trouxeram de Manteigas macacos hidráulicos e materiais em cima de mulas, ainda assim parece pouco.

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Ao longo do tempo a casa foi deixada ao abandono e vai servindo de abrigo a pastores e seus rebanhos ou a alguns aventureiros.

Quando se chega junto das gigantes fragas da Nave da Mestra é imperdível entrar pelo topo onde está a entrada de uma longa fenda, um fenómeno geológico que nos tira do sério de tão entusiasmante a sua descida, assim que desembocamos da fenda arregalamos bem a vista para nos pasmar com tamanha beleza natural que vemos a todo o redor.

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Somos ladeados com um bloco granítico à direita tipo de um pão de forma e à esquerda, percebemos que a parede se desprendeu de algumas toneladas de rocha.

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Virados de frente temos para a direita a Lagoa Comprida, os Cântaros, o Covão D’Ametade, de frente temos o Vale da Candeeira e a depressão do Vale Glaciar, para a esquerda fica Manteigas.

Descemos ao vale e de frente da casa há um espaço amplo enorme, cheio de tufos que nos amortecem as passadas, ao fundo um riacho com água corrente e fresca, e a toda a nossa volta percebemos que estamos ladeados de muros propositados ao espaço circundante.

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Quando se olha para o lado de Manteigas vemos um penedo gigante com o formato de uma barca, pelo que este lugar emprega outro nome como sendo a Nave da Barca Herminios. Histórias que foram ficando....

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O regresso, derivámos no sentido das Penhas Douradas apanhando um trilho bastante acessível e se a vinda foi presenteada de beleza, o regresso superou.

 

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Marco geod nave e trilho trovoada.jpg

Já muito próximo do alcatrão, desviámos pelo Vale das Éguas, tipo de um pequeno bosque encantado que também tem trilho marcado e nos leva desde o fundo da barragem do Rossim até ao paradão de onde partimos.

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No final e como não podia deixar de ser, para refrescar, um mergulho no lago.

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A vontade de voltar é tanta que teremos todo o prazer em acompanhar quem se render a estes lugares paradisíacos, contactem-nos: discoveryemotions@gmail.com

Para referência, esta atividade foi realizada em 31/05/2020